Meri Grubić é poetisa, tradutora e ensaísta, nasceu no ano de 1970 em Split, na Croácia. Licenciou-se em Filosofia e Literatura Comparada, na Faculdade de Letras de Zagreb e na mesma faculdade estudou Língua e Literatura Portuguesas. Atualmente, é candidata a doutoramento na Universidade de Zadar, com uma tese na área de Filosofia: Filosofia do Amor de Frane Petrić (Francesco Patrizi). Desde 1999 trabalha na Embaixada de Portugal na Croácia. É membro da Associação de Escritores Croatas.

Até à data publicou as seguintes coleções de poemas originais: Nemesis (2006), Acerca dos Mares e das Tristezas/O morima i tugama, edição croata-portuguesa (2011) e Demetra Fez Acordo com o Sol/Demetra se nagodila sa suncem (2021).

A mais recente coleção de poesias filosóficas, Dolcezza, editada em várias revistas literárias croatas, surgiu à margem do doutoramento e é dedicada ao filósofo do renascimento de origem croata, Frane Petrić. O termo “dolcezza” é central no conceito da sua filosofia de amor. Em breve, na Philos, publicaremos um caderno especial da artista com curadoria de Stephane Chao e Kátia Bandeira de Mello.

Aprecia particularmente a forma poética do soneto e até a data publicou as seguintes traduções dos clássicos portugueses: Sonetos Escolhidos de Luís de Camões, edição bilingue (2007), Sonetos Escolhidos de Florbela Espanca, edição bilingue (2014), A Navegação do Silêncio, poemas escolhidos de Sophia de Mello Breyner Andresen, (2016) e A Noite Mais Clara que o Dia, sonetos escolhidos de Antero de Quental, edição bilingue, (2018). Em 2022 publicou a edição bilingue, O Guardador de Rebanhos & O Pastor Amoroso de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa. Todas as obras publicadas são acompanhadas por ensaios filosóficos. 

ACERCA DOS MARES E DAS TRISTEZAS/
O MORIMA I TUGAMA
DEMETRA FEZ ACORDO COM O SOL/
DEMETRA SE NAGODILA SA SUNCEM

VRATA U DNU HODNIKA

Ne znam zašto mi se čini,
kad je moja prabaka
istiskivala
svoje drugo blizanačko čedo
iz utrobe
(o čemu nije mogla slutiti)
držeći se rukama za dovratak,
da su to bila upravo ona vrata
ispred dugačkog i mračnog
hodnika
i da je njezina pojava bila visoka
koliko i sama vrata,
a ruke su se širile iznad dovratka
i još dalje od zidina,
u to doba nedovršene kuće,
mada to uopće nisu mogla biti
ta vrata niti ta kuća
i tko zna
je li se to uopće dogodilo
u nekoj kući
ili se moja prabaka nalazila u polju,
ispod nekog stabla
koje nije bilo niti visoko,
niti dugovječno,
nego sitno i bez lišća,
a ona je samo
širila i širila
svoje dugačke ruke
prema nebu. 

A PORTA NO FUNDO DO CORREDOR

Não sei, porque me parece,
quando a minha bisavó empurrava
o seu segundo filho gêmeo
da entranha,
(o que não podia imaginar),
pegando as suas mãos no batente,
que se tratava da mesma porta,
em frente do corredor
longo e escuro,
e que a sua figura era alta
como essa própria porta,
e as mãos se estendiam fora
do batente,
e mais longe das muralhas
da casa, nessa altura, não terminada,
mesmo que isso não pudesse ser
essa porta, nem essa casa,
e quem sabe
se isso aconteceu numa casa
ou a minha bisavó se encontrava
no campo,
debaixo de uma árvore
que não era nem alta, nem longeva,
mas pequena e sem folhas,
e ela só estendia as suas mãos
para o céu.

Cadu, da série Nadar Nada Mar, 2022
PREPOZNAVANJE

nisam znala
da pod morem
leži škrinja s blagom
dok jednom nisam
uronila
u tišinu vode 

otad ne poznajem
nikoga više
osim svog divljeg srca
zarobljenog u tijelu
nepoznate žene 

i dok moje ruke klize
vodom
kroz sedlo njenih leđa
bedrenim udolinama
kroz oštre brazde
ne sjećam se ožiljaka
ni prvotne boli
sve manje poznajem
svoje tijelo
jer more uzima
oblik i težinu

***

živim od rasipanja
do rasipanja
ponekad
složena preživim
cijelo stoljeće
možda čak i dan
sakupim svoje žalo
prije velikog vala
i dršćem na suncu
sva bliješteće kapi
na sivom kamenu

A IDENTIFICAÇÃO 

não sabia
que arca do tesouro
estava no fundo do mar
quando
um dia mergulhei
no silêncio da água 

a partir deste momento
não conheço niguém
além do meu coração selvagem
capturado no corpo
da mulher desconhecida

enquanto as minhas mãos
deslizam na sela
das costas dela
nas colinas das coxas
dentro das esteiras agudas
não me lembro de cicatrizes
nem da dor original
cada vez menos
conheço o meu corpo
desde o mar
leva a forma e o peso

***

vivo da dissipação
a dissipação
às vezes
feita de partículas
sobrevivo o século todo
talvez um dia inteiro
recolho as minhas pedras
antes da grande onda
tremendo ao sol
toda em gotas brilhantes
nas rochas cinzentas

Cadu, da série Nadar Nada Mar, 2022
Avatar de Desconhecido
Publicado por:

Deixe uma resposta